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Profissões que não escolhemos



            O filme “O primeiro ano do resto de nossas vidas”, de 1985, discute as incertezas de um grupo de jovens recém-formados em relação ao futuro profissional:  
             “Quer saber qual a profissão ideal para você? Descubra algo que faria de graça para o resto da vida e ganhe dinheiro com isso” — diz um dos personagens, traduzindo o espírito dos anos oitenta, do qual os Steve Jobs e Bill Gates da vida são notórios representantes. Aparentemente um bordão como esse serve para relativizar tudo. Quando ao trabalho nos dá prazer, canalizamos para ele com uma vontade que beira o entretenimento; dedicação e disciplina, duas palavrinhas que, não raro, tem conotação de castigo para muitos de nós.
            Viver da nossa vocação é uma tarefa arriscada. No auge da juventude, o que parece supérfluo e ambicioso a olhos alheios, para o obstinado é uma necessidade, orgânica até, que o faz concentrar-se no seu objetivo em si, sem que o foco da remuneração o persiga. Com o tempo, percebemos que nem sempre, fazer o que se gosta é sinônimo de sucesso profissional e, principalmente, que sendo bom no que faz, vá ganhar rios de dinheiro.
            Quando somos convocados a escolher que caminhos trilhar, ante a constatação de que um único grande sonho não preenche uma existência, cabe-nos diferenciar a necessidade pura e simples de prover a subsistência; das implicações que acrescentamos à nossa vida por vontade própria. Há uma série de desejos periféricos, camuflados, sem os quais percebemos que não podemos viver. Latentes, elas afloraram querendo furar a fila dos desejos inadiáveis.  Para abraçar uma profissão que não escolheríamos se tivéssemos outra opção, precisamos ser sinceros conosco mesmos para admitir que outras facetas da nossa vida, adquiriram importância não percebida no começo, sobrepujadas que foram pelo objetivo principal. A ânsia por autonomia é uma delas. Principalmente, se toda a dedicação e disciplina que até então reservamos àquela que cremos ser a nossa vocação mais se assemelhou a murro em ponta de faca. Inclusive, pela constatação honesta de que não tínhamos o talento que julgávamos possuir.
            Não vale a pena nos tornarmos mesquinhos, enrijecidos em nossas profissões, exercendo-as como se fosse um fardo, compartimentadas, desligadas da vida.            Geralmente essa postura se traduz numa atitude defensiva e de desprezo, como recurso para isolar-se das pessoas com quem convivemos e firmar status-quo.  
Quem nos garante que temos uma posição? Nossas profissões são duras, cheias de contradição que nos afetam e as queixas um dia aparecem. E quando elas vêm, não há tranqüilidade. Resta-nos ponderar se todas as profissões não são assim, cheias de exigências, cheias de animosidade contra o indivíduo, repletas do ódio daqueles que se conformaram, resignados e rabugentos com sua obrigação insossa. Se o cargo que ocupamos é um espaço a ocupar, cheio de convenções, preconceitos e enganos a enfrentar; há o mesmo nível de exigência em todas as profissões. Há algumas que proporcionam uma liberdade maior, mas não há nenhuma que seja ampla e espaçosa, que se relacione com as grandes coisas de que a verdadeira vida é constituída.
            A solidão premeditada também é ela própria, um trabalho, um cargo e uma profissão. Quando optamos pela solidão interior, isso seria sentido em qualquer trabalho. Quando sentimos o que acontece do lado de fora da nossa vida, ao final de um dia pleno de acontecimentos, qualquer cargo se desprende de nós como um peso morto, por mais que nos encontremos no meio da vida em plenitude. Tal sentimento opressor ocorreria conosco mesmo que procurássemos um contato com a sociedade, ainda que superficial. É resultado de evitarmos a comunhão entre nós e os que estão ao nosso redor. Não é um privilégio dos solitários por opção. É assim em toda parte. Podemos procurar a proximidade daquilo que não nos abandona. Da natureza e dos animais, por exemplo, plena de acontecimentos em que se pode tomar parte, de pensar acerca da própria vida frente às ambições da juventude. 
            Tudo de palpável e delimitado que hoje faz parte da nossa vida, ganha seriedade e necessidade. O fantasma do fracasso requisita atenção independente e de tempos em tempos nos põem diante de dúvidas recônditas. Para isso, busquemos um distanciamento que nos permita ver a realidade além dos pensamentos que possamos ter alimentado, presos a um sonho supostamente irrealizado. De que nos serve uma lucidez aberrante a não ser para que fujamos do trabalho de equacionar nossas perdas e ganhos e não nos oferecer nenhuma resposta?   Podemos ter perdido a oportunidade de virar a página e perceber a verdadeira dimensão dos projetos que efetivamos, dos nossos dons explorados e do tempo, que se encarregou de tirar do nosso rosto o olhar de desdém e de tédio, daqueles que realmente fracassam: Os que se agarram a uma única opção e não usam a sua inteligência e lucidez para se transformar, mudar de rota, quando a maturidade lhes indica o desvanecer dos sonhos.     

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