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Os Sapatos Sujos da Língua Portuguesa

O texto abaixo nos foi cedido pela advogada Silma Duarte, de Porto Alegre, que gentilmente nos permitiu a publicação neste espaço. Conhece Mia Couto? Moçambicano, ele estudou medicina e biologia. Mas se dedica às letras. Tem leitores cativos em Europa, França e Bahia. Os brasileiros o prestigiam em lançamentos, palestras e tietagens. Os patriotas também. Outro dia, convidaram-no para abrir o ano letivo do Instituto Superior de Ciências de Moçambique. O tema: os sapatos sujos da modernidade. Ele justificou a escolha do assunto assim: "Não podemos entrar na modernidade com o atual fardo de preconceitos. À porta da modernidade, precisamos nos descalçar”. Contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos modernos. Haverá muitos. Mas eu tinha de escolher. E sete é número mágico". O 1º sapato sujo: a ideia de que os culpados são os outros e nós somos sempre vítimas. O 2º: a ideia de que o sucesso não nasce do trabalho. O 3º: o preconceit...

Shirin Ebadi: O Clamor por Mudanças no Irã. Uma Voz em Defesa dos Direitos Humanos.

            A advogada iraniana Shirin Ebadi foi responsável pela palestra da noite de 13 de junho, do ciclo de conferências “ Fronteiras do Pensamento ” realizado no salão de Atos da UFRGS em Porto Alegre.             O evento, cujo objetivo é estimular o debate sobre a identidade da época em que vivemos, teve sua estréia em 23 de maio, passado, com a presença do crítico literário americano e teórico marxista Frederic Jameson, com o tema A Estética da Singularidade.             Prêmio Nobel da Paz em 2003, por sua atuação na defesa dos direitos humanos no Irã, Shirin Ebadi, a segunda conferencista do ciclo Fronteiras do Pensamento , usou o idioma farsi para expressar-se durante a conferência, dividida em duas partes, a segunda dedicada a responder às perguntas da platéia.        ...

Noites em Claro

            Pobres dos insones. Um turbilhão de pensamentos toma conta da mente quando o sono teima em não vir. Não adianta contar carneirinhos para que o tão merecido descanso do corpo e dos sentidos se faça presente. Quando o todo não quer ou não pode ser adormecido, o resultado é o estado de alerta geral. As tentativas revelam-se infrutíferas e só resta-nos esperar a boa vontade daquela inércia característica invadir-nos e então possamos dormir sem perceber.             É lógico que estamos falando de quem perde o sono uma vez ou outra. Existem casos de doença, de pessoas que necessitam de medicamentos para dormir, receitados por um médico, naturalmente. Se não conseguir descansar de vez em quando já é um terror, imaginemos o que deve ser a vida de quem quer dormir e não consegue. Existem ramos da medicina hoje tratando exclusivamente das doenças do sono, tal a catástrofe ...

Para Que Serve Isso mesmo?

            Nossa sociedade contemporânea consolidou os clichês para ratificar o que queremos encerrar peremptoriamente, dar um veredito, sem comportar maiores elucubrações. São armadilhas que lançamos mão num ímpeto de explicar qualquer coisa que apareça e para a qual não tenhamos tempo para um raciocínio mais amplo ou até por incapacidade mental nossa de fazê-lo.             Fruto da nossa ignorância, toma corpo o descarte de tudo aquilo que não enxergamos aplicação imediata. Sinônimo também da impaciência característica dos nossos dias. Só nos serve o que é instantâneo, centrado no que está acontecendo agora e que precisa obrigatoriamente servir para alguma finalidade. Qualquer raciocínio um pouco mais complexo é doideira do interlocutor. O que serve é o aqui e agora.             Na visão utilitária e imediatista há t...

Desencanto

Para o filósofo argelino Albert Camus, “sem trabalho, toda vida apodrece. Mas sob um trabalho sem alma a vida sufoca e morre”. Fazer a diferença é bom, satisfaz o ego e dá uma sensação de bem estar enorme, sem contar o sentimento genuíno da tão apregoada sensação do dever cumprido. Até a gora, só clichê e citação, mas existem sentimentos que nos invadem em certos períodos da vida que são como um soco no estômago: Tem o poder de paralisar-nos, não sem antes fazer-nos sentir dor e ela persistir latente, incomodando-nos no físico e na alma. Um destes sentimentos é o desencanto. Ao contrário do encantamento, que presume enlevo num crescendo que resulta num ápice, o desencanto devolve-nos à realidade, deixando-nos sem vontade para nada. Acontece em situações corriqueiras até, mas quando percebemos, vimos que o monstro foi devidamente alimentado de forma sorrateira. E sem que notássemos, foi tomando conta de nós e de uma hora para outra, parece ter deixado nossa vida órfã de sonhos. Que...

Fidelidade é Tendência

Não. Fidelidade não caiu de moda, Senhoras e Senhores. Antes que alguém tenha a brilhante idéia de nos internar por ousar tal afirmativa, declaramos a quem interessar possa – ou não - que não se trata de loucura da autora. É a mais pura verdade. Talvez seja uma declaração tão antiga quanto o tratamento formal do início deste texto. Fidelidade é tendência. Aliás, esta sim, uma palavrinha moderna, enxuta e forte. Tendência. Soa bem, não é? Quando a ouvimos, sabemos que foi dada a largada para adquirirmos, usufruirmos ou adotarmos a nova tradução de estar na moda. Tendência quer dizer que pouca gente possui, algum privilegiado deu o sinal, caiu no twitter, milhares retuitaram, conferindo ao produto status de novidade novíssima – perdoem-nos a redundância, mas é proposital. Como o casquete, chapeuzinho, enfeite – sei lá o quê mais – da agora Princesa Catherine, a noiva mais vista do planeta. Tudo o que orbitou em volta do casamento do século gerou uma onda avassaladora e não ...

Hora Certa

Qual é a hora certa de se tomar uma decisão, iniciar um projeto, sepultar rancores ou tentar reparar um erro? Não há diferença visível quando o tempo que se tem para realizações parece estar ali, ao alcance da mão, disponível para que o utilizemos na ocasião em que bem entendermos. É a tentação avassaladora que nos invade nestes momentos de postergar, deixar para depois. Oportunidades de resolução são momentos dolentes, que incomodam porque nos instigam a sair de um paradigma antigo, cômodo e é dolorido mudar. Trocar posturas é desconfortável até que nos ajeitemos e a situação passe a transcorrer dentro do conceito que convencionamos chamar de normalidade. Aparente, diga-se de passagem, pois a segurança e o domínio de um processo são transitórios, face aos impulsos externos a que somos obrigados a responder, contrapor ou aceitar e adaptar-nos. Isto sem falar no nosso ímpeto interno que igualmente tem sustentabilidade frágil. Depois eu dou conta disso, mais adiante eu penso como agi...

Cumplicidade No Lar

Quando as dificuldades do trabalho tornam-se o foco principal, a família passa a ser uma filial do escritório, fábrica ou repartição. Cada problema não fica no seu reduto, os do serviço confinados no prédio da empresa e os de casa no seu respectivo lugar, porque quem transita pelos dois ambientes é o mesmo ser humano. Melhor falar de trabalho que não falar nada. Não compartilhar o que vai dentro da cabeça e também não conseguir esconder a dor do rosto é ajudar a diminuir a resistência, inclusive física. A sensação inicial de que o santuário do lar foi invadido ao trazermos o que nos afeta no trabalho para casa, perde importância frente às dificuldades enfrentadas pela pessoa. É ela que nos interessa e sabermos a causa das dores é o primeiro caminho para colaborarmos. Mesmo que seja para ficarmos quietos e respeitar a visão do outro, ou então, saber a parte que nos cabe naquela preocupação. Isto elimina de cara “o que será que eu fiz para ele estar assim” e foca direto no problema. Q...

Tanto Faz Seis, Como Meia Dúzia?

Cada vez que a ciência avança numa área que antes era reduto da Filosofia, os filósofos tremem na base. Para quem acha que filosofia é só análise conceitual, que não precisa se meter naquilo que a ciência explica, convém dar uma espiada nas reviravoltas da evolução tecnológica e sua ingerência no campo do pensar. Temas que antes eram redutos da filosofia, hoje se mudaram de mala e cuia para o âmbito da ciência propriamente dita. Fazer o quê. A natureza do vácuo, por exemplo, até a época de Descartes era questão filosófica. Depois da Teoria da Relatividade, o vazio bandeou-se para o lado da Física. Ok. Nem tudo passou totalmente para o âmbito da ciência. É o caso do tempo, que ficou ali, no meio termo. Um pé na física e outro na filosofia. E o que dizer do projeto Blue Brain, que pretende simular em computador todo o nosso cérebro? Se os programadores da Escola Politécnica da Suiça – onde o projeto existe desde 2005 - conseguirem tal feito, discussões hoje filosóficas acerca do cé...

IDENTIFICAÇÃO

Você passou o dia inteiro iniciando trabalhos, não os concluiu e falta resultado palpável para apresentar à chefia no final do dia, mesmo que não tenha parado um minuto sequer. Sensação de desamparo e de tempo perdido. Você chega em casa e sua família está nos nervos parecendo que faz questão de te irritar em tudo. Você não pode abrir a boca que só vem "mas". Tudo o que você quer é dormir mas todos tropeçam em tudo e com um barulho assim não tem quem durma. Você é um desânimo só, perguntam a causa e nem você mesma sabe. Aí vem a pergunta: "O que está acontecendo comigo?". É hora de identificar claramente o que nos perturba para não misturarmos com o choro outras sensações represadas. Nossa avaliação pode ser: “Estamos insatisfeitos conosco porque não produzimos o suficiente. Ninguém nos cobrou e somos nós mesmos quem estamos nos imputando este grau de exigência. Os familiares não estão tendo nenhuma atitude que não nos sejam conhecidas e se elas parecem ser dirigid...

Varrendo as Coisas Velhas

Imagine que você seja uma pessoa profundamente conectada com sua herança cultural, suas tradições e tenha herdado um prédio histórico, concretizando a possibilidade sonhada de morar num local impregnado de história, uma relíquia de casarão do século XIX. Como todo habitante do século XXI, tem acesso à Internet, banda Larga, notebook, adora um banho quente e uma TV de plasma; embora isso pareça incoerente, respeito com o passado não quer dizer abrir mão das comodidades do presente. Vistoriando o local, constata que precisa de uma nova rede elétrica, pintura de paredes – você sofre de alergia -, não há pontos para TV a Cabo ou Internet e o piso do chão pede urgente para ser trocado. Aqueles móveis maravilhosos de madeira do tempo dos seus bisavós precisarão de uma boa descupinização e uma pátina para adquirir um ar de falso vintage, pois in-natura é impossível conviver com eles. Adoraria substituir a banheira antiqüíssima por uma com hidromassagem e descobre que as instalações sanitária...

Questão de Acessibilidade

Causou-nos surpresa saber que aquele renomado pesquisador de uma universidade federal usa a Internet para arquivar sua produção textual. Ele possui uma conta de e-mail que lhe dá armazenamento ilimitado. Então, envia um e-mail para si próprio e o conteúdo fica disponível ao toque de um clique. Simples, assim. A decisão foi tomada após constatar que muito do que produzira estava se tornando inacessível por mídia obsoleta. Ou seja, a fita cassete, o disquete, o CD, estavam ultrapassados como meio de arquivamento. Não havia hardware disponível com os requisitos indispensáveis à recuperação do conteúdo. Para não retroagir ao bom e velho meio “papel”, o que lhe tomaria um tempo indisponível com a realidade atual, aderiu ao arquivo on-line. Não que isso lhe garanta a acessibilidade infinita, mas pelo menos o horizonte de conservação é maior e dará tempo para se adequar às novas mídias. O acesso físico àquilo que produzimos, aos papéis que atestam a propriedade, o cumprimento de obrigações,...

Expandindo o Presente

O mundo dos negócios é como um tanque de guerra que esmaga o cliente mais rápido que o blindado da concorrência. Somos todos fornecedores e clientes uns dos outros, cada um com a sua própria urgência. O melhor desafia o apenas bom. Sempre há alguém bebendo da mesma fonte e perder tempo aprimorando um produto, significa chegar atrasado ao mercado? É impressão nossa ou o tempo se acelerou? Nosso aqui e agora significa esta semana. Para muitos, aqui é da porta de casa para dentro, uma ilha onde seus habitantes não investem no futuro, exceto no seu próprio. Acorrentados aos desejos, sucumbimos se não os satisfazemos. Não importa se a vida útil será efêmera, o descarte é previsto como parte do ciclo. Não há tempo para discernir se é condicionamento ou opção. O aperfeiçoamento tecnológico trouxe a rápida capacidade de adaptação e recompensa, catapultou a visão de curto prazo e inibiu-nos de pensar no futuro. A rapidez conduz à obsolescência a tecnologia anterior e ai de nós se não acompanha...

Queimando Livros

Um patrimônio em linguagem escrita de um povo foi arruinado em 1992, na Bósnia. Granadas incendiárias das forças sérvias destruíram um milhão e quinhentos mil de livros ali abrigados, 155 mil deles, manuscritos raros, abrigados no prédio da Biblioteca Nacional de Sarajevo. Desde então, bibliotecários do país usam a Internet para localizar manuscritos bósnios e repor o maior número possível de documentos perdidos. Para o diretor da biblioteca na época, “os sérvios da Bósnia, sabiam que para destruir aquela sociedade multiétnica, tinham que destruir também sua biblioteca”. Por mais que nos indignemos com a queima de livros, convém pensarmos o pano de fundo de tais episódios. Do imperador romano Júlio Cesar a Mao Tsé-Tung, diversos líderes promoveram a incineração de livros, às vezes, manchando biografias célebres, mentoras de mudanças positivas para a humanidade. Não faltam exemplos, mas alguns deles são divisores de águas, pelo dano que causaram à continuidade do conhecimento. Foi ass...