Pular para o conteúdo principal

Injustiça em Dobro


Quer testar se alguém é um verdadeiro profissional na arte de persuadir? Dê-lhe um mesmo fato e lhe peça duas versões. A pessoa imergirá totalmente no personagem que eleger primeiro para enxergar daquele ponto de vista específico, alheando tudo o que não corroborar para a sua defesa. Procurará encontrar argumentos que os armazenará em seu íntimo, de forma que quando afirmar categoricamente, todo o seu ser esteja imbuído dessa certeza e o interlocutor titubeará em duvidar, tamanha a aura de veracidade que lhe é impingida. O expectador é seduzido pelo profissional da interpretação, pois ao fundamentar seu desempenho num arcabouço de conhecimentos acumulados, apropriou-se de conceitos que estão no inconsciente coletivo e a eles acrescentou um toque de criatividade, que é justamente sua contribuição imperceptível para a verdade que quer consolidar. Abstraindo-se totalmente de qualquer devaneio que não seja o do convencimento, ignora a face que não é a defendida na ocasião e cria a ilusão de que aquilo que defende é toda a verdade.

É claro que precisa inteirar-se do ideal de seu público e ser para com este um juiz implacável. Não lhe basta expor o que pensa. É preciso desmontar a crença do interlocutor, pedacinho por pedacinho, sem que ele perceba, levado pela aura de sedução do expositor. O esforço é hercúleo. Não pode restar um único grão de humilhação de quem está sendo convencido. Nenhuma vantagem ou sorte supera a sensação incômoda de ver seu raciocínio reduzido a um atestado público de ignorância. A sutileza em retirar os contras silenciosos é extremamente rápida, de forma que o interlocutor não perceba que foi surrupiado de sua verdade e que outra está penetrando em sua mente sem que se dê por conta. A compreensão é pensada no todo, para não se perder tempo de suprimir o mal-entendido nos detalhes, sob pena de gastar saliva inutilmente defendendo-se. O convencimento é avassalador e alcança inclusive, o pensamento inconsciente. Afinal, não há quem suporte ver o outro passar por cima dos seus brios, que a intuição alerta antes. Ela nos dá o sinal de que algo consolidado em nós está sendo invadido. A rede de defesa é acionada e precisa no mínimo que o encadeamento lógico que nos está sendo imposto, seja coerente o bastante para que nos consolemos em trocar nossa verdade pela do outro. Mesmo que isso dure um tempo infinitamente pequeno, nossa mente precisa deixar-se invadir para crer. Na relação íntima com a nossa consciência, a determinação férrea em satisfazê-la. Se ao mostrar a outra face da moeda o interlocutor nos decepcionar, a desculpa do verdadeiro que a nossa consciência representa. O que vulgarmente chamamos de botar a cabeça no travesseiro e dormir o sono dos justos, já que o nosso interior está apaziguado com as desculpas plausíveis que absorvemos.

Tira-se o chapéu para o habilidoso na arte de convencer, afinal, para chegar ao auge de sua maestria ele fez uso exaustivo da reflexão sobre qualquer idéia nova que lhe surgiu e pensou em cadeia. Amarrou todos os argumentos e convenceu-se primeiro. Ao expor a terceiros é tiro e queda: - o pensamento consolidado já lhe surge com um círculo que se completou, numa intuição induzida, que nada mais é que o cérebro vincado com a informação, porém arquivado em pastas. Destas, será retirado o conteúdo disponibilizado ao interlocutor e quando defender exatamente o oposto. O raciocínio compartimentado entrará em ação novamente, fechando o arquivo anterior e abrindo um novo e vestindo o personagem oposto ali contido. Toda e qualquer imagem anterior não será acessada. Haverá em sua mente um novo bloco de informações que constitui outra versão do mesmo problema, igualmente embasada adequadamente, disponível na sua memória de trabalho, apagando completamente a anterior.

Pensar é uma maneira de discernir. Não se trata da cega avidez de saber a qualquer custo. O instinto do conhecimento por si só não leva à verdade. Quando abusamos da capacidade de persuadir, roubamos momentaneamente as certezas de alguém, pois a reflexão só julga depois. Se isto é um exercitar das enganações a que o nosso cérebro pode ser induzido, a astúcia pode até ser considerada uma legítima defesa, porque pré-acordada entre as partes. O que não podemos é gerar uma dupla injustiça e mascarar o que defendemos ora de um jeito, ora de outro, pela incapacidade de “ver em conjunto e com isso ignorar ou negar a cada vez a outra face, com a ilusão de que aquilo que vemos é toda a verdade”.

Comentários

Postar um comentário

Por favor, deixe aqui sua opinião sobre o texto.

Postagens mais visitadas deste blog

A métrica no poema e como metrificar os versos de um poema.

Texto publicado no site Autores.com.br em 25 de Novembro de 2009 Literatura - Dicas para novos autores Autor: PauloLeandroValoto "Alguns colegas me abordam querendo saber como faço para escrever e metrificar os versos de alguns de meus poemas. Diante desta solicitação de alguns colegas aqui do site, venho explicar qual a técnica em que utilizo para escrever poemas com versos metrificados. Muitos me abordam querendo saber: - Como faço? - Como é isso? - O que é métrica? - Como metrifico os versos de meus poemas? - Quero fazer um tambem. - Me explique como fazer. Vou descrever então de uma forma simples e objetiva a técnica que utilizo para escrever poemas metrificados. Primeiro vamos falar de métrica e depois vamos falar de como metrificar os versos de um poema. - A métrica no poema: Métrica é a medida do verso. Metrificação é o estudo da medida de cada verso. É a contagem das sílabas poéticas e as suas sonoridades onde as vogais, sem acentos tônicos, se unem uma com as outras fo

A arte de escrever Sonetos

Texto de Paola Rhoden, publicado no site Autores.com em 05 de novembro de 2009 Em primeiro lugar, não se ensina um poeta a escrever. Ele tira da alma o que sua mão escreve. Porém, a tarefa de escrever um soneto, uma obra considerada pelos intelectuais de símbolo da poesia, não é fácil. Não é fácil porque aqueles que cultuam essa técnica, não arredam pé de que é essencial para um soneto seguir as regras. Mas, para quem gosta e quer seguir por esta árdua estrada, abaixo seguem algumas delas: Um soneto é uma obra curta que transmite uma idéia completa. Para se escrever um soneto perfeito, ou clássico, como é chamado pelos profissionais de literatura, deve seguir as regras mundialmente utilizadas, que são: métrica, ritmo e rima. Um soneto clássico é formado por quatorze (14) versos decassílabos, dispostos em quatro estrofes, da seguinte maneira: a) dois quartetos ( ou quadras ); b) dois tercetos ( ou terças); c) a métrica deve seguir as normas. Cada um dos 14 versos deve ser decassíla

Jogo de Palavras

Dizer que foi o receptor da comunicação quem se equivocou é uma atitude cômoda para o emissor, porém arriscada, já que a conversa pode se encerrar por ali. Quando lançamos mão do tradicional “você é que não me entendeu”, estamos transferindo para o outro a responsabilidade pelo equívoco que nós mesmos provocamos. Na prática, a nossa atitude em si é arrogante, pois não admite a possibilidade de erro e ainda por cima se exime das conseqüências, como se fôssemos donos da verdade e só a nossa versão é que contasse. Seria muito mais humilde e receptivo trocar a mensagem por “eu não me fiz entender”. Acalma o interlocutor e de quebra nos dá fôlego para uma segunda chance. Ocorre que na maioria das vezes nos utilizamos dessa tática com a melhor das intenções e com o honesto propósito de esclarecer a idéia que queríamos transmitir. Como a resposta vem de imediato à nossa mente, estamos convictos que esta forma de se expressar é correta e tanto cremos nisso que a reação é automática e não en