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Avaliar


Alguém está contando para um terceiro uma estória de arrepiar acerca do comportamento de uma pessoa que ambos conhecem. Os sentidos de quem está perto logo entram em estado de alerta, pelos detalhes interessantes do caso. Paralelo ao relato, quietos no nosso canto, dificilmente não entramos mentalmente na conversa e vamos tecendo nosso juízo e parecer sobre o assunto.
Todos nós temos opinião sobre qualquer tema. O que vai permitir se vamos ocupar nossos neurônios com ele é o grau de interesse que o assunto nos desperta.
Se orelha realmente queima quando se fala do que acontece na vida dos outros, como diz a lenda, certamente as do Felipão fumegaram quando da pendenga dele na saída do Chelsea e os milhões que embolsou de multa rescisória. E agora o cara vai para a Rússia, treinar um time de nome esquisito e o imaginário dos futebolistas ferve no mundo inteiro. Mas claro, trata-se de dinheiro. Quer assunto melhor para palpitar que dinheiro? “É uma pessoa pública, desperta a curiosidade de todos. É natural”, dirão alguns. Pode ser. Só que o ímpeto de avaliar, como diz o Elio Gaspari, é inerente ao ser humano. Incorporado ao nosso cotidiano, o ato de avaliar pode ser instrumento necessário à reflexão que invariavelmente somos chamados a nos posicionar, nas mínimas coisas do dia-a-dia, sob pena de decidirem por nós; ou uma artimanha infernal de opinar por opinar, sem nenhum resultado positivo para nossas vidas e ainda atrapalhar a dos outros.
Passamos boa parte de nossa existência fazendo mais as coisas que não gostamos, do que aquelas que imaginamos ser ideais para nós. Muitas vezes a gente gosta e não sabe. Temos a mania de achar que bom é aquilo que já passou, esquecendo de usufruir do que está acontecendo agora. Com o alheio, é a mesma coisa. A vida dele é sempre melhor que a nossa. O carro dele, então, é bem superior ao nosso modelo pra lá de básico. A doencinha ele nem se compara ao terror da nossa rinite alérgica.
Ao julgar o outro, conscientemente ou não, estamos tentando impor a nossa visão do mundo, nosso conceitos de certo e errado. O perigo é que podemos estar nos esquecendo que o próximo tem o direito de fazer o mesmo conosco. Sem contar que podemos estar entrando no mérito de um dos direitos mais sagrados do ser humano: o livre arbítrio.

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