Pular para o conteúdo principal

Postagens

BOB DYLAN, BELA, BRISA E EU

    Ontem à noite passei um aperto com dois terneiros que atravessaram pelo lado do mata-burro e foram comer grama dentro do pátio.     Bob Dylan, um Lhasa metido a Pitbull deu o aviso e disparou porta afora. Mais atrapalhou que ajudou - eu tocava os terneiros de um lado, Bob espantava do outro.           As duas cadelas Cimarrón, Bela (a mãe) e Brisa (a filha) estavam presas e latiam sem parar, querendo participar da festa.  Bela pulou a cerca e Brisa - que só tem tamanho, é nenê ainda - latia desesperada, presa no canil.            Aí virou um gritedo só. Eu, as cadelas, o pequeno Bob e o terneirinho menor - já que o maior passou de volta pelo lado do mata-burro.         Quando me dei por conta, a Bela estava grudada no pescoço do terneiro, encurralado num canto da horta. O bichinho corria por cima das verduras e a cadela, atrás. Terminaram com o canteiro...

ROSSO DI SERA BEL TEMPO SI SPERA

PARCEIROS DO JAGUARI

A adolescente boia em descanso após atravessar o rio a nado. Esquadrinha o céu límpido à procura de nuvens naquele início de tarde. A água tépida de verão lhe acaricia o dorso.   – Vem, Luti, vem! Convida o enorme cão preto – porte indicando alguma nobreza – que se mantém inabalável, olhos fixos no rio. Ele está com preguiça hoje, ela pensa. Vira momentaneamente o rosto para a margem, vê o cachorro levantar uma das patas dianteiras em direção às orelhas. Espantando as moscas, imagina. Ele era assim, feito gente, cheio de manias, aquele seu companheiro. Não pode contar com o Luti hoje. A mocinha flutua no rio, íntima dele desde a infância. Distraída, embala-se nas águas, o corpo inicia um giro, alheio ao seu comando. No começo, devagar, depois, o ritmo aumenta, levando-a para outra parte onde o cálido é substituído pelo frio. O choque térmico lhe aguça os sentidos, percebe a água em círculos sob ela, a aragem, seguida de um farfalhar; a lembrança de frio percorrendo o...

CAÇA AO PALMEIRA

Vai ser difícil outro mês tão memorável quanto está sendo esse aqui na cidade das belezas naturais. Sabe quando a população inteira adere ao monoassunto? Pois é o que acontece nesses meados de fevereiro. Por uma semana todo mundo só fala da mesma coisa: os artistas estão entre nós. O melhor hotel da cidade foi contratado de porteira fechada para abrigar a constelação global que irá ocupar as telinhas no horário das nove a partir de maio. Nívea Maria foi a abre alas. E não é que o primeiro lugar que ela visitou por aqui foi o Cine Teatro Ideal? Artista deve ser atraído por esses locais, afinal, o prédio onde hoje é uma farmácia, já foi supermercado, cinema e teatro. Sim, na primeira década do século XX Jaguari já tinha iluminação pública, banda de música, jornal e teatro. Por aqui fervilhava uma atividade cultural intensa para os padrões da época. Coisa que se perpetuou até nossos dias. Que o digam o Festival de Música Nativista “O Grito de Jaguari”, o carnaval mais famoso da r...

HAMMURABI E A TORRE DE BABEL

Em meados do II milênio a.C, um grupo nômade MAR.TU – amorrita – fixou-se em uma localidade denominada Babila, às margens do rio Eufrates, cerca de 20 km a sudoeste de Kis. O nome foi interpretado pelos grupo como Bab-lim = porta de deus – que resultou no sumerograma KA,DINGIR, depois traduzido nas línguas modernas por Babel. O xeque do grupo invasor, Sumuabum (1894-1881 a.C) investiu contra o domínio das cidades de Isin e Larsa, expandindo sua conquista para as cidades de Kazalu e de Dilbat, ao tempo em que fortificou a capital, Babel. Seu sucessor, Sumula’el (1880-1845 a.C) selou a independência política de Babel após a construção do grande muro da cidade e de vitórias sucessivas sobre as cidades vizinhas. Com isso, estabeleceu a base da sua dinastia, que dominou a região por três séculos. Os amoritas tinham Marduk como deus principal desse novo grupo, mas as tradições sumérias e acádicas foram aceitas e incorporadas. Seu filho Sabium (1844-1831 a. C), é tido como o construtor de ...

COMO FAZER UM MINHOCÁRIO?

-Tranque os futuros hamburgers da propriedade numa área de no máximo um hectare(10.000 m2); - Deixe eles pastaram e devolverem o produto ruminado no local confinado; -Quando o pasto estiver pontilhado de circunferências tipo bolachas, pizzas  secas e com coloração verdeescuroacinzentado (a popular bosta seca), cate uma a uma; - Use luvas e avental e uma grade de cerveja vazia para não ter que buscar e levar uma a uma até o local escolhido para o minhocário; - Use a grade, não as cervejas; - Pode ser um canto cercado do pasto ou quintal; - Jogue água nas pizzas para amolecer e pique com um enxadão; - Faça uma camada de pizzas de mais ou menos um palmo de altura (mão de Ferreira, mais ou menos 20 cm) e espalhe bem; - Depois, passe a mão numa máquina de cortar grama e deixe o pátio ao redor da casa bem limpinho; - Junte os restos de grama e coloque em cima das pizzas ou bolachas. Espalhe bem; - Passe a mão num carrinho de mão e junte terra de mato. Depois...

UM OUVIDO, POR FAVOR!

Às vezes nos dá aquela vontade danada de discutir umas ideias que temos na cabeça e achamos maravilhosas, com alguém que temos certeza que vai nos entender. Tudo bem se a vontade de telefonar não for às oito da manhã e o nosso interlocutor não for puro instinto até passar o mau humor matinal. Até tentamos segurar a ansiedade, mas não é sempre que se consegue. O resultado é inevitável. Tudo o que retorna do outro lado é um balde de água fria. “Oi, tudo bem”. Você espera e nada daquele “que prazer te ouvir!” costumeiro. É o suficiente para abortar seus pensamentos, por mais brilhantes que eles inicialmente tenham parecido. E aí nos convencemos que o melhor lugar para eles é lá no fundo do nosso cérebro. É complexa a sintonia entre o nosso momento e o do outro, mesmo os mais íntimos. Estamos loucos para conversar e só de olhar a cara do(a) parceiro(a), dá para ver raios e trovões se armando e o olhar ferino que nos é dirigido, nos desencoraja no ato. Ou então, estamos com uma dorzi...

Capela São Francisco. Inspirada na Igreja de Santa Maria dos Anjos da Porciúncula. Assis, Itália

Caminhos de Francisco

Toda energia

A Lei de acesso à informação. Cuba e Angola: Empréstimos com carimbo de "SECRETO"

  Aproveitando o debate que tivemos hoje em aula sobre a abertura ou não dos arquivos dos tempos da repressão, comentamos matéria publicada em 09/04/2013, pela Folha de São Paulo, de autoria do jornalista Rubens Valente, intitulada Brasil coloca sob sigilo apoio financeiro a Cuba e a Angola. A notícia de que o governo federal, através do Ministro do Desenvolvimento, Fernando Pimentel, classificou como secreta a documentação que trata dos financiamentos do Brasil aos governos de Cuba e Angola surpreende e, poderia passar despercebida de todos nós. Certamente, os meios de comunicação ficaram sabendo disso através do artigo 30, inciso II, da Lei nº 12.527, de 18/11/11, a Lei de Acesso à Informação, que prevê a publicação anual pela entidade máxima de cada órgão responsável do “rol de documentos classificados em cada grau de sigilo. O cidadão comum, que em 2012 festejou a publicação da chamada Lei de Acesso à Informação, pode se indagar:   “Que tipo de documento pod...

Reflexões sobre cérebro e consciência. Parte III

  Para a neurocientista e baronesa britânica Susan Greenfield, palestrante da conferência Fronteiras do Pensamento, de 22/09/2012, em Porto Alegre, com o tema o cérebro do futuro, o futuro do cérebro, “À medida que evolui, o cérebro humano consegue se libertar da tirania dos genes e se adaptar ao ambiente. A isso chamamos plasticidade, que vem do grego plastikos, que quer dizer ser moldado . Por cem mil anos, tempo em que o homem está no planeta, nenhum outro ser desenvolveu um cérebro como o seu”.     Professora da Universidade de Oxford, a neurocientista dedica-se ao estudo da fisiologia das doenças de Alzheimer e de Parkinson, além de trabalhar como divulgadora científica. A baronesa é voz dissonante na comunidade científica e fora dela; por defender que e ambiente virtual afeta de forma negativa o cérebro humano. Ela, inclusive, levou para o parlamento britânico, do qual faz parte; a discussão sobre a regulação do uso da internet e possíveis efeitos nocivos...

Reflexões sobre cérebro e consciência. Parte II

A consciência é uma qualidade da mente. Abrange outras designações, tais como subjetividade, autoconsciência, sapiência, e a capacidade de perceber a relação entre si e um ambiente. É objeto de pesquisa no âmbito da ciência cognitiva e suas especialidades, médicas ou não, que vão desde a neurologia, a psicologia, a antropologia, passando pela filosofia da mente, além da inteligência artificial. Descobrir se estados mentais são estados cerebrais é dúvida antiga. O divisor de águas é o pensamento do filósofo e médico, Renè Descartes ao afirmar que estados mentais e estados cerebrais não são a mesma coisa. Ao defender a existência de um centro cerebral da consciência na glândula pineal e que, através dela, a alma se comunicaria com o soma (corpo), Descartes respondeu de forma original para o século XVII, à pergunta que sempre inquietou os humanos: — Quem somos nós? Três séculos depois, o filósofo da mente, Daniel Dennett contesta a validade da teoria de Descartes. Para Dennett...

Reflexões sobre cérebro e consciência - Parte I

Reflexões sobre cérebro e consciência. Parte I. Consciência no sentido clássico é o estado em que a pessoa está ciente de suas ações físicas e mentais, só ocorrendo quando se está acordado e alerta. Por volta do século V a.C. o cérebro passou a ser reconhecido como o centro das atividades mentais, mas a idéia da existência de uma substância responsável pela formação da consciência, a dualidade herdada da antiguidade grega, persistiu. No século XVII, o filósofo e médico René Descartes, afirmou que a alma — mente — (e, por dedução a consciência) se dissociam do cérebro e do corpo. Somos uma mente que interage causalmente com um corpo e esse corpo se comporta como uma máquina. Essa alma não existe nos animais e nos autômatos (sim, Descartes imaginou os robôs). Possuímos comportamento reflexo; e, o cérebro é o local onde nossos pensamentos ocorrem. Estava criado o dualismo moderno, a doutrina segundo a qual mente e corpo são radicalmente distintos. Desde então dualistas e ...

Sobre o ato de escrever cartas

                     Escrever cartas hoje em dia é um ato totalmente anacrônico. Ninguém escreve estando próximo e a correspondência necessita da distância e da ausência para prosperar. Sendo este o motivo, tampouco se justifica a manutenção dessa forma de se comunicar. Basta uma tela de um celular para romper distâncias e uma tela de computador para visualizar o interlocutor do outro lado do mundo.             Aqueles poucos que insistem em escrever o fazem por saudosismo e pelo desejo que o destinatário responda também da forma epistolar. Ou seja, cartas assim, se tornam uma camisa de força para quem recebe. Algo parecido com duplicatas, que se recebe e se deve. Pode ser uma alegria receber uma carta, principalmente se for de um amigo. Contudo, o remorso em não respondê-la fica ali, perturbando-nos ao longo dos dias como uma dívid...

Profissões que não escolhemos

            O filme “O primeiro ano do resto de nossas vidas”, de 1985, discute as incertezas de um grupo de jovens recém-formados em relação ao futuro profissional:                 “Quer saber qual a profissão ideal para você? Descubra algo que faria de graça para o resto da vida e ganhe dinheiro com isso” — diz um dos personagens, traduzindo o espírito dos anos oitenta, do qual os Steve Jobs e Bill Gates da vida são notórios representantes. Aparentemente um bordão como esse serve para relativizar tudo. Quando ao trabalho nos dá prazer, canalizamos para ele com uma vontade que beira o entretenimento; dedicação e disciplina, duas palavrinhas que, não raro, tem conotação de castigo para muitos de nós.             Viver da nossa vocação é uma tarefa arriscada. No auge da juventude, o que parece supérfluo e ambicios...