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Hora Certa

Qual é a hora certa de se tomar uma decisão, iniciar um projeto, sepultar rancores ou tentar reparar um erro? Não há diferença visível quando o tempo que se tem para realizações parece estar ali, ao alcance da mão, disponível para que o utilizemos na ocasião em que bem entendermos. É a tentação avassaladora que nos invade nestes momentos de postergar, deixar para depois. Oportunidades de resolução são momentos dolentes, que incomodam porque nos instigam a sair de um paradigma antigo, cômodo e é dolorido mudar. Trocar posturas é desconfortável até que nos ajeitemos e a situação passe a transcorrer dentro do conceito que convencionamos chamar de normalidade. Aparente, diga-se de passagem, pois a segurança e o domínio de um processo são transitórios, face aos impulsos externos a que somos obrigados a responder, contrapor ou aceitar e adaptar-nos. Isto sem falar no nosso ímpeto interno que igualmente tem sustentabilidade frágil. Depois eu dou conta disso, mais adiante eu penso como agi...

Cumplicidade No Lar

Quando as dificuldades do trabalho tornam-se o foco principal, a família passa a ser uma filial do escritório, fábrica ou repartição. Cada problema não fica no seu reduto, os do serviço confinados no prédio da empresa e os de casa no seu respectivo lugar, porque quem transita pelos dois ambientes é o mesmo ser humano. Melhor falar de trabalho que não falar nada. Não compartilhar o que vai dentro da cabeça e também não conseguir esconder a dor do rosto é ajudar a diminuir a resistência, inclusive física. A sensação inicial de que o santuário do lar foi invadido ao trazermos o que nos afeta no trabalho para casa, perde importância frente às dificuldades enfrentadas pela pessoa. É ela que nos interessa e sabermos a causa das dores é o primeiro caminho para colaborarmos. Mesmo que seja para ficarmos quietos e respeitar a visão do outro, ou então, saber a parte que nos cabe naquela preocupação. Isto elimina de cara “o que será que eu fiz para ele estar assim” e foca direto no problema. Q...

Tanto Faz Seis, Como Meia Dúzia?

Cada vez que a ciência avança numa área que antes era reduto da Filosofia, os filósofos tremem na base. Para quem acha que filosofia é só análise conceitual, que não precisa se meter naquilo que a ciência explica, convém dar uma espiada nas reviravoltas da evolução tecnológica e sua ingerência no campo do pensar. Temas que antes eram redutos da filosofia, hoje se mudaram de mala e cuia para o âmbito da ciência propriamente dita. Fazer o quê. A natureza do vácuo, por exemplo, até a época de Descartes era questão filosófica. Depois da Teoria da Relatividade, o vazio bandeou-se para o lado da Física. Ok. Nem tudo passou totalmente para o âmbito da ciência. É o caso do tempo, que ficou ali, no meio termo. Um pé na física e outro na filosofia. E o que dizer do projeto Blue Brain, que pretende simular em computador todo o nosso cérebro? Se os programadores da Escola Politécnica da Suiça – onde o projeto existe desde 2005 - conseguirem tal feito, discussões hoje filosóficas acerca do cé...

IDENTIFICAÇÃO

Você passou o dia inteiro iniciando trabalhos, não os concluiu e falta resultado palpável para apresentar à chefia no final do dia, mesmo que não tenha parado um minuto sequer. Sensação de desamparo e de tempo perdido. Você chega em casa e sua família está nos nervos parecendo que faz questão de te irritar em tudo. Você não pode abrir a boca que só vem "mas". Tudo o que você quer é dormir mas todos tropeçam em tudo e com um barulho assim não tem quem durma. Você é um desânimo só, perguntam a causa e nem você mesma sabe. Aí vem a pergunta: "O que está acontecendo comigo?". É hora de identificar claramente o que nos perturba para não misturarmos com o choro outras sensações represadas. Nossa avaliação pode ser: “Estamos insatisfeitos conosco porque não produzimos o suficiente. Ninguém nos cobrou e somos nós mesmos quem estamos nos imputando este grau de exigência. Os familiares não estão tendo nenhuma atitude que não nos sejam conhecidas e se elas parecem ser dirigid...

Varrendo as Coisas Velhas

Imagine que você seja uma pessoa profundamente conectada com sua herança cultural, suas tradições e tenha herdado um prédio histórico, concretizando a possibilidade sonhada de morar num local impregnado de história, uma relíquia de casarão do século XIX. Como todo habitante do século XXI, tem acesso à Internet, banda Larga, notebook, adora um banho quente e uma TV de plasma; embora isso pareça incoerente, respeito com o passado não quer dizer abrir mão das comodidades do presente. Vistoriando o local, constata que precisa de uma nova rede elétrica, pintura de paredes – você sofre de alergia -, não há pontos para TV a Cabo ou Internet e o piso do chão pede urgente para ser trocado. Aqueles móveis maravilhosos de madeira do tempo dos seus bisavós precisarão de uma boa descupinização e uma pátina para adquirir um ar de falso vintage, pois in-natura é impossível conviver com eles. Adoraria substituir a banheira antiqüíssima por uma com hidromassagem e descobre que as instalações sanitária...

Questão de Acessibilidade

Causou-nos surpresa saber que aquele renomado pesquisador de uma universidade federal usa a Internet para arquivar sua produção textual. Ele possui uma conta de e-mail que lhe dá armazenamento ilimitado. Então, envia um e-mail para si próprio e o conteúdo fica disponível ao toque de um clique. Simples, assim. A decisão foi tomada após constatar que muito do que produzira estava se tornando inacessível por mídia obsoleta. Ou seja, a fita cassete, o disquete, o CD, estavam ultrapassados como meio de arquivamento. Não havia hardware disponível com os requisitos indispensáveis à recuperação do conteúdo. Para não retroagir ao bom e velho meio “papel”, o que lhe tomaria um tempo indisponível com a realidade atual, aderiu ao arquivo on-line. Não que isso lhe garanta a acessibilidade infinita, mas pelo menos o horizonte de conservação é maior e dará tempo para se adequar às novas mídias. O acesso físico àquilo que produzimos, aos papéis que atestam a propriedade, o cumprimento de obrigações,...

Expandindo o Presente

O mundo dos negócios é como um tanque de guerra que esmaga o cliente mais rápido que o blindado da concorrência. Somos todos fornecedores e clientes uns dos outros, cada um com a sua própria urgência. O melhor desafia o apenas bom. Sempre há alguém bebendo da mesma fonte e perder tempo aprimorando um produto, significa chegar atrasado ao mercado? É impressão nossa ou o tempo se acelerou? Nosso aqui e agora significa esta semana. Para muitos, aqui é da porta de casa para dentro, uma ilha onde seus habitantes não investem no futuro, exceto no seu próprio. Acorrentados aos desejos, sucumbimos se não os satisfazemos. Não importa se a vida útil será efêmera, o descarte é previsto como parte do ciclo. Não há tempo para discernir se é condicionamento ou opção. O aperfeiçoamento tecnológico trouxe a rápida capacidade de adaptação e recompensa, catapultou a visão de curto prazo e inibiu-nos de pensar no futuro. A rapidez conduz à obsolescência a tecnologia anterior e ai de nós se não acompanha...

Queimando Livros

Um patrimônio em linguagem escrita de um povo foi arruinado em 1992, na Bósnia. Granadas incendiárias das forças sérvias destruíram um milhão e quinhentos mil de livros ali abrigados, 155 mil deles, manuscritos raros, abrigados no prédio da Biblioteca Nacional de Sarajevo. Desde então, bibliotecários do país usam a Internet para localizar manuscritos bósnios e repor o maior número possível de documentos perdidos. Para o diretor da biblioteca na época, “os sérvios da Bósnia, sabiam que para destruir aquela sociedade multiétnica, tinham que destruir também sua biblioteca”. Por mais que nos indignemos com a queima de livros, convém pensarmos o pano de fundo de tais episódios. Do imperador romano Júlio Cesar a Mao Tsé-Tung, diversos líderes promoveram a incineração de livros, às vezes, manchando biografias célebres, mentoras de mudanças positivas para a humanidade. Não faltam exemplos, mas alguns deles são divisores de águas, pelo dano que causaram à continuidade do conhecimento. Foi ass...

Agradecendo Sempre

Deus não tem agenda, se tivesse, haja trabalho para atender as súplicas da humanidade. Não há nome tão lembrado e, diga-se de passagem, clamamos o nome de Deus em vão. Qualquer sustozinho que tenhamos, lá vem um Oh, Meu Deus! Parece até que copiamos dos filmes americanos a mania do Oh, my god e por pouco não saímos por aí dizendo I Love you, já que este é outro bordão que não falta em filme made in USA. Sim, porque americano diz Oh, my god e I Love you para tudo. O que não quer dizer que quando eles usam estas expressões estejam lembrando sinceramente de Deus ou que estejam amando de fato alguém ou ao Divino. Pedidos na cultura religiosa estão diretamente ligados à oração e à comunhão com o Ser Supremo, que o homem em desespero implora, eleva as mãos aos céus pedindo apoio e satisfação de suas necessidades. O Deus da nossa crença é um repositório de tudo aquilo que a nossa natureza humana considera insolúvel ou que, embora contido na partícula divina que temos conosco, não descobrimos...

Preparando o Terreno

Criar condições para que realizações à primeira vista impossíveis aconteçam é mérito de poucos. Geralmente são as pessoas conhecidas por preparar o terreno, removerem uma pedrinha aqui, outra ali, dando a impressão que a estrada está sempre limpa e que não há dificuldades que não se possa superar. Gente assim germina idéias, exercita a paciência na espera pelos frutos, uma vez que olhos mais incautos apostam que elas não surgirão. Não raro, são calculistas e não podem ser confundidos com os ingênuos, sonhadores, que apostam suas fichas traçando planos inexeqüíveis, metas difíceis de serem alcançadas ou entregam-se ao instinto deixando-os ao sabor do acaso, presas ao “algo me diz que acontecerá”. A intuição é uma arma poderosa, mas tem que se revestir do concreto para surtir o efeito desejado. Quem se encarrega do durante, dificilmente usufrui depois. Após terminar uma etapa, lá vai sacudindo a poeira e partindo para outras realizações. Antecipar-se aos fatos é adotar postura e ação p...

Indecifrável

Temos certa dificuldade em desvendar aqueles que “tem uns quantos por dentro”. Embora uma personalidade ás vezes se sobressaia ante as outras, as múltiplas facetas que este tipo de pessoa nos proporciona nos fascina e atordoa do mesmo tempo. São os indecifráveis a olhos incautos, cuja leitura limita-se ao que está sendo verbalizado e assim não se preocupa ou não, se desenvolveu pensamentos para entender as mensagens subliminares. Adequar-se ao interlocutor é antes de tudo é uma forma de respeito. Toda profissão tem o seu vocabulário próprio. Cada ocasião também. Para o pensador polonês Zygmunt Baumann, os valores da sociedade ocidental dissolvem-se, cerceando a tolerância e o relacionamento. É o que Baumann denomina “era de liquidez”. Princípios diluídos na rapidez das mudanças. Em comum restou-nos a incapacidade de relacionarmo-nos com o outro de maneira plena, com respeito ao que cada um de nós tem de singular e subjetivo. A tendência é atribuir valor à figura do outro da maneira qu...

Eu Não Choro

Eu não chorei quando a personagem Camila cortou os cabelos naquela antiga novela da TV Globo, por estar com leucemia. Por mais que a atriz Carolina Dieckmann tenha se esforçado em dar realismo à cena, as lágrimas não saíram. A tradução do cotidiano para filmes, novelas, provoca empatia na maioria de nós. O desejo ou o medo de estar no lugar do personagem, leva-nos a indagar se o que se passa na tela não seria o retrato do que poderia acontecer conosco. Adoro filme em que o mocinho não morre no final. Não vi “Coração Valente” até hoje, apesar de eu saber que é uma história e tanto. Mas como eu sei que tem cenas de violência, me nego a ver. Exatamente pela possibilidade do que está na tela ser o que de fato ocorreu ou até pior. Confrontar-se com a dureza da realidade é um desafio que poucos suportam, mas que invariavelmente nos contaminam. Comodismo, negação? Pode ser. Fechar os olhos como se nada tivesse acontecendo pode não ser a melhor tática. Mas entre a alienação e envolver...

A Outra Face do Gênio

Tchaikovski aproveitou a peste que se alastrava pela Europa e tomou água contaminada, vindo a morrer de cólera. Filho de família tradicional, expert da música, teve uma vida até certo ponto normal. Casou-se, inclusive. Tudo bem se não tivesse um detalhe. Ele era homossexual e o casamento foi só para atender as convenções da sociedade, vindo a suicidar-se – embora indiretamente - quando não agüentou mais conviver com a situação. É difícil encontrar entre aqueles ditos gênios, quem consiga equilibrar a genialidade nos diversos campos do conhecimento – seja música, ciência, escrita – com os padrões de comportamento que a convivência social exige. Trocando em miúdos, não é sempre que alguém com elevada capacidade mental criadora é sinônimo de bom pai, bom marido ou a nora que pedimos a Deus. Gênios são espíritos iluminados, com energia direcionada ao processo criativo, maior foco de prazer também. Não entendem como isso não é percebido pelos outros mortais, indiferentes à importância do ...

As Mulheres e o Poder

A escritora americana Harriet Rubin sintetiza a relação das mulheres com o poder em seu livro Princesa – Maquiavel para Mulheres, Editora Campus – 2004, da seguinte forma: - As mulheres hábeis em manejar o poder preferem fortalecer seus opositores, cooptá-los como aliados, em vez de abrir uma guerra. – Mulheres contribuem para instalar um clima mais cooperativo e evitam o estilo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”. A habilidade para o trabalho em equipe, hoje tão apregoada é confundida com indecisão e fraqueza. Tacham-nos de inseguras no exercício do Poder. O fato é que minimizamos nossos acertos, enquanto os homens minimizam suas dúvidas. O que aparenta ser um baixo nível de confiança encobre apenas o desejo de não parecer esnobe. Valorizamos o trabalho coletivo em vez de cultuarmos nossos próprios méritos. Homens conduzem negócios usando expressões como estratégia, tática e ofensiva. Voltemos um pouco no tempo e imaginemos ao longo da história os homens nas frentes de batalha...

HAJA PACIÊNCIA!

Paciência é um dom e nascemos com ele. Se a afirmativa for verdadeira, pobre de quem não a tem. Qualidade das mais necessárias, não há um campo sequer das atividades humanas onde se possa abrir mão da paciência. Educa bem, ensina direito quem o faz o conhecimento fluir naturalmente. O professor com o qual mais se aprende, parece estar em casa deitado na rede ao invés de dando aula, demonstra dominar o ofício com maestria, sempre senhor da situação. Não é preciso ser supermestre, mas se não tiver o jogo de cintura como aliado para as nuances do ensinar, como lidar com a gama de informações dos alunos, a receita não dá certo e o bolo vai “batumar”. Nosso mundo tornou os minutos contados e não há relógio que sincronize o tempo do outro com o nosso. E dê-lhe autoajuda a exigir um tempo para nós. Mas se não temos tempo nem para respirar direito, como meditar, se a condição para a placidez interior é a sintonia com o mundo externo, para daí captar os fluídos tranqüilizadores do nosso espí...

A Beleza da Arte Chamada Escrita - Por Bridgit Baldavir

Brigit Baldavir, a BB, é escritora e colega do site onde ambas publicamos textos. Gentilmente ela nos cedeu o texto abaixo para publicação neste espaço. Ei-lo: Algumas pessoas têm me perguntado por e-mail como fazer para exprimir suas ideias de maneira clara, coesa e que o interlocutor entenda o pensamento exposto? Muito mais do que isso, alguns têm me feito perguntas quanto ao uso da linguagem. Eu sempre digo que o conteúdo é o mais importante, mas a apresentação e a forma não podem ser descartadas. Estou dizendo que primeiramente é preciso conhecer o objetivo do seu texto e para quem se destina. Por quê? É comum eu ler poesias, contos, crônicas e romances. Em minha graduação, devo ler relatórios, artigos técnicos e monografias, além dos livros-textos. Por que eu digo isso? Porque na escrita de cada um dos exemplos citados de textos existe um objetivo e, alguns deles, uma norma a ser seguida. Já disse em outra oportunidade, mas volto a frisar que ser um bom leitor e assíduo é fu...

Isto Não Vai Dar Certo

Internamente carregamos a certeza da impossibilidade que algo flua. Movidos pelos instintos, todo o corpo corrobora pela insistência e manutenção dos desejos, pelo prazer que a busca proporciona. Lutar contra algo que suspeitamos quase impossível é agradável. Principalmente se é o que está posto, aquilo que as pessoas esperam e não será objeto de contestações. Poucos enxergam além e é o desfecho óbvio para a maioria. É cômodo e porque não ceder ao bem estar? Fora isto, há a relação custo-benefício. Quantas pedras não haveríamos de rolar pirâmide acima para abdicar do que é confortável? Ele, o ideal desenhado está ali, à mão, embalado pelo sentimento e promessa de atendermos à nossa vontade, sentirmo-nos livres por estar seguindo o que o instinto determina. Sendo assim, não há porque ter caraminholas na cabeça, conjecturar conseqüências que podem mudar o rumo da nossa vida, unicamente porque uma voz interna nos diz que isto não vai dar certo. Não fecha com os nossos projetos de vid...

PARTIDAS

Enfrentar com dignidade a tempestade e refazer-se interiormente após sua passagem não é tarefa fácil. Temos necessidade de harmonia na mente para que o corpo fique em paz. Quando passamos por perdas há todo um desequilíbrio que não sabemos por onde começar para retomar a nossa vida. Principalmente quando se trata da partida de alguém que já cumpriu sua parte na vida terrena e vai embora quando chegou sua hora, dizem alguns, foi escolha, alegam outros. Mas não há resposta para o vazio que provocam em nosso íntimo tampouco conformidade com a perda. Choramos por aquele que se foi, mas no fundo nossas lágrimas são de autopiedade, coitadinhos de nós que vamos sofrer com a ausência física. Sempre há alguém indo embora, seja inesperado ou como vela que se apaga serenamente. A inconformidade é idêntica em todos. Racionalmente sabemos que uma hora ou outra partiremos, é assim que caminha a humanidade, mas nossos pobres sentidos rendem-se ao mistério da vida e a pergunta permanece: Quem somos?...

Injustiça em Dobro

Quer testar se alguém é um verdadeiro profissional na arte de persuadir? Dê-lhe um mesmo fato e lhe peça duas versões. A pessoa imergirá totalmente no personagem que eleger primeiro para enxergar daquele ponto de vista específico, alheando tudo o que não corroborar para a sua defesa. Procurará encontrar argumentos que os armazenará em seu íntimo, de forma que quando afirmar categoricamente, todo o seu ser esteja imbuído dessa certeza e o interlocutor titubeará em duvidar, tamanha a aura de veracidade que lhe é impingida. O expectador é seduzido pelo profissional da interpretação, pois ao fundamentar seu desempenho num arcabouço de conhecimentos acumulados, apropriou-se de conceitos que estão no inconsciente coletivo e a eles acrescentou um toque de criatividade, que é justamente sua contribuição imperceptível para a verdade que quer consolidar. Abstraindo-se totalmente de qualquer devaneio que não seja o do convencimento, ignora a face que não é a defendida na ocasião e cria a ilusão ...

O Prazer da Ausência de Dor

Embora a uniformidade aparente do ser humano, cada trajetória é única. Ao corpo que a genética nos deu, são acrescidos nome, sobrenome e uma vida de interação com o meio ambiente, que a partir do nascimento nos cabe administrar. No começo, com alguma ajuda, mas chega o momento em que seremos nós os responsáveis pelas alterações incutidas em nosso corpo e mente. Diferentemente dos animais, o homem possui natureza composta de razão e desejo, este último, se desprende das sensações provocadas pelos sentidos clássicos de visão, audição, olfato, gosto e tato. Um arsenal de sentidos que são as nossas primeiras determinações físicas, reflexo das eternas leis da natureza, onde cada ser procura o seu prazer e foge do desprazer . Somatório de processos assimilados de longo tempo, o instinto se forma basicamente por imitação, garante a sobrevivência. É meio de civilização, artefato original que passamos boa parte de nossa vida tentando domar e adequar. A maioria dos homens subsiste sob o domíni...