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Dissimulação

Queremos a supressão da capacidade de ler nas entrelinhas. Dói demais perceber o real sentido das palavras quando elas são combinadas de forma a nos omitir algo, a induzir-nos a raciocinar de forma pré-determinada pelo interlocutor, coisa que o nosso sininho interior se nega a aceitar. Estamos ficando mais sabidos com as mensagens subliminares. Queremos a faculdade de não olhar nos olhos, porque corremos o risco de enxergar uma máscara por detrás do sorriso e nos perdermos naquilo que virmos. Se nos bastasse perder o instante, o fato em si, não haveria problema. Mas não há como dissociar a pessoa à nossa frente, da atitude que ela está tomando no momento em relação a nós, claramente dissimulatória. Não precisamos enxergar os meandros de ninguém, já que os nossos próprios nos dão trabalho o suficiente. Tampouco cada um de nós é anjinho o bastante para também não fazer uso das mesmas táticas quando confrontados, instados a fazer aquilo que não queremos. A tendência é encararmos como defe...

Rebobinando a fita

Andarilhos profissionais costumam ser acometidos por surtos de saudosismo. Nas andanças vê desfilar aos seus olhos o filme de uma vida ao deparar-se com a cumplicidade atávica que encontra em cada uma das comunidades onde vive por certo período. Não raro, deixa-se invadir por um misto de inveja daqueles que partilham uma história comum com tudo a que tem direito e que lhes confere compreensão imediata entre seus membros. A comunicação, por exemplo, se faz de maneira instintiva, sem palavras até. Um olhar, um cenho franzido é suficiente para que se compreenda o contexto, os sentimentos, o que se quer transmitir. É ou não é de dar inveja, num mundo minimalista em afetos como o nosso essa sensação de clã que quem vive muito tempo junto compartilha? Se nascer, crescer, constituir família e morrer no mesmo lugar era característica de um Brasil rural, hoje a pirâmide se inverteu. A desocupação do campo inchou a periferia das grandes cidades e de favela em favela, alguns escapam da redoma da ...

Paradoxo

Alma minha, Essência que me anima Estás tão gelada, Quanto a geada que me cerca? Será, maninha Que queres que eu me perca Em tantas madrugadas Que povoam minha existência Gelada? Como podes estar gélida, Se eu aqui estou? És tu que me soltas, Que acende em mim a faísca Que faz com que eu siga à risca, O que o destino me traçou. Mas que destino é este, Que mais parece peste, Com este caos que se abate, Às vezes sobre mim? Que me faz ter mil anos, Cometer tantos enganos? Resta ser caldo ainda, Cultura em início de vida Borbulhando desencontradas, Alma por ser nascida Na negritude do começo, Mas que, ao primeiro tropeço, Vislumbra a caminhada, Que aparece de repente, Uma eternidade inteirinha, Que se tem pela frente.

Jogo de Palavras

Dizer que foi o receptor da comunicação quem se equivocou é uma atitude cômoda para o emissor, porém arriscada, já que a conversa pode se encerrar por ali. Quando lançamos mão do tradicional “você é que não me entendeu”, estamos transferindo para o outro a responsabilidade pelo equívoco que nós mesmos provocamos. Na prática, a nossa atitude em si é arrogante, pois não admite a possibilidade de erro e ainda por cima se exime das conseqüências, como se fôssemos donos da verdade e só a nossa versão é que contasse. Seria muito mais humilde e receptivo trocar a mensagem por “eu não me fiz entender”. Acalma o interlocutor e de quebra nos dá fôlego para uma segunda chance. Ocorre que na maioria das vezes nos utilizamos dessa tática com a melhor das intenções e com o honesto propósito de esclarecer a idéia que queríamos transmitir. Como a resposta vem de imediato à nossa mente, estamos convictos que esta forma de se expressar é correta e tanto cremos nisso que a reação é automática e não enten...

Certezas

Há momentos em que o interlocutor quer arrancar de nós uma resposta a todo custo. Só que não é uma resposta qualquer. Além da nossa afirmativa ele procura se convencer e exige que tenhamos argumentos que o satisfaçam, que tiremos todas as suas dúvidas. De quebra, ainda se reserva o direito de esboçar o famoso sorrisinho irônico de Mona Lisa do século vinte e um e lançar o golpe de misericórdia: “Tem certeza?”. Antes que o rosto fique num vermelhão, a boca mais rápida que o cérebro e lancemos um monte de impropérios para cima do convencido, respiramos fundo e com esforço contido dizemos: “Certeza só a morte. Ainda assim para quem não acredita em Deus”, acrescentamos ao tradicional bordão que se lança mão quando alguém nos coloca contra a parede. A vida parece nos exigir certezas continuamente. Como se fosse vital acertar a cada atitude que tenhamos. Vamos juntando um amontoado de valores e a certo ponto nos perguntamos o quê daquilo tudo sobra para acreditarmos mesmo, o que é certo. Se ...

O Pacto

A impotência é uma sensação perigosa e quando ela se instala, o sentimento é de que nossa vida não mais nos pertence e perdemos o controle sobre ela. Sem perceber, abrimos mão da capacidade de interferir no nosso próprio destino, convictos que nenhuma atitude nossa vá mudar o curso dos acontecimentos. Sucumbimos ao fatalismo, à suposta ausência de sorte, ao pré-determinado por um destino que se incitados a clarificar, não sabemos dar forma ou concretizá-lo. O destino é assim. Cômodo, fácil e nos provoca aquilo que mais queremos fazer nas horas de desespero: Sofrer. Ah! Como um sofrimentozinho faz bem. Quanto mais descemos na nossa angústia, parece que o fundo do poço ainda está longe e incita a curiosidade mórbida de descer mais. Não queremos mais o domínio. É boa a sensação de se deixar levar pelo sabor das ondas. Detalhe: Não somos nós que estamos conduzindo nossa vida. Estamos nos deixando levar. Daquilo que não tomamos parte, que não fomos chamados a decidir, também não nos comprom...

Agosto

Luz, quanta luz! Se eras tanta Porque fugiste Deixando-me só? A essência não inspiro Ressecam-me, Fazem-me fenecer, Só a noite escura, A chuva gelada A garganta ressequida. Há poucos resquícios Há pouca vida Para ser vivida. Quero um crédito, Uma cota a mais Porque este ano? Por quê me desengano? Será que é profano Implorar ao infinito Que me deixe ficar? Eu peço, contrito, Mais tempo... Há tanto Que quero fazer. Há trilhas a percorrer Preciso do sol, De novo no rosto Preciso passar De novo, Por este agosto Aí, com certeza, Terei em seguida Onze meses adiante De mais vida Inexorável. Até que o novo agosto Volte... Implacável

Civilidade

Segundo a consultora de moda Glória Kalil, “estamos em um momento de individualidade que traz coisas positivas, mas ela é perigosa, pois podemos nos esquecer do outro. Temos que olhar, ver o outro e ter o compromisso com a civilidade”. Traduzindo para o dia a dia das pessoas comuns, não tão glamourosas quanto a Glória, o que seria civilizado para nós? Gentileza, bons modos, estilo? Tudo isso mais uma palavrinha que parece fazer parte só das camadas mais altas da sociedade, porém acessível a todos nós, sim: Elegância. Também é uma palavra diretamente ligada com imagem, transpira futilidade para aqueles cuja batalha maior é garantir a sobrevivência do dia seguinte. Movidos a necessidades básicas, soa gozação falar em elegância com esse público, mas é inerente a quem tem conteúdo, mesmo que sequer tenha conta bancária. Viemos nesse mundo para evoluir. E como arremata Glória Kalil, na entrevista à revista South Star, “imagem é importante, mas com conteúdo. E conteúdo passa pela civilidade,...

Trivializar o anormal

Sabe aquela sensação que temos diante de algum problema e o nosso íntimo demonstra que não há o que fazer? E não é por preguiça ou covardia. É quando sentimos que só a nossa parte não basta, que por mais que façamos será inútil, não vai mudar um milímetro sequer. É um misto de prepotência com impotência. Prepotência porque ao nos convencermos de que não há nada a fazer, criamos uma visão particular da situação e o mundo ao redor está cego. Portanto, estamos trazendo para nós o papel de donos da verdade. Situações como o momento político atual, acionam a sensação de impotência. É só ligarmos a TV para percebermos que o novelo da crise não termina nunca, confinando-nos à posição de meros expectadores. A coisa está tão bizarra, tão complicada, que a verdade em si há muito se perdeu no emaranhado de versões dos mensalões e mesadões, escândalos no Senado, quem mentiu ou não e por aí vai. O que importa agora é quem consegue construir uma verdade mais consistente que a outra, condizente com a...

Quem tem medo de Joan Brossa?

O calor daqueles últimos dias de janeiro era insuportável e mesmo assim não resistimos ao desejo de visitar o MARGS -Museu de Arte do Rio Grande do Sul-. Estava em cartaz uma exposição do artista catalão Joan Brossa , de Barcelona ao Novo Mundo. Chegamos um pouco antes do horário e de cara encontramos o museu em obras e com o ar condicionado sem funcionar. Na primeira sala de exposição, correntes pendiam do teto instigando-nos a olhar para cima e uma placa na parede indicava o nome da obra: Correntes de Dâmocles . Levamos um susto e veio o pensamento inevitável e quem estava conosco percebeu: “Estas correntes estão prestes a cair sobre as nossas cabeças!” Era uma obra de arte contemporânea . Uma instalação? É difícil imaginar o que o autor queria expressar com a obra, mas se era impacto, conseguiu. Há objetos que trazem referências explícitas ao casamento, como as algemas com um de seus lados substituídos por uma pulseira cravejada de pedras que lembram brilhantes. Este tipo de art...

Incautos e impulsivos

Como lidar com os nossos extremos? Supervisão constante ou privação de oportunidades? Escolhas, simplesmente. E só contamos conosco para traçar um mapa mental do terreno a cada decisão, consolidar o sistema até que o cérebro acostume-se a buscar interesses que preencham a sensação de estar perdendo algo quando se diz um não. Por detrás da expectativa da perda há uma diminuição da exposição desnecessária a riscos. E quando se tem uma inaptidão natural para detectar mentiras, somos de certa forma, uma ameaça ambulante à nossa integridade. Quando as ferramentas internas são insuficientes para lidar com algumas situações, vale apostar na precaução. O mundo interior de quem tem pouco senso espacial é voltado para as palavras e não precisa de imagens, pois a mente formula diálogos sem necessidade delas. Detectar pequenas diferenças em expressões faciais, por exemplo, é quase impossível. Não porque não queira, mas por não ter o artefato necessário. Quando tomamos decisões sem pensar, cremos n...

Desajeitados

Para quem é desajeitado o senso espacial e a memória visual são suficientes para andar por aí com segurança. Não se lembra de carros ou rostos que viu pouco e crê piamente que a sua parte do cérebro responsável por espaço e formas só tem só neurônio paralisado. Deve ser por isso que não achamos a menor graça naquele mico que pagamos na infância ou adolescência, quando fomos ridicularizados na frente de todo mundo e aquela amiga insiste ainda hoje em dar gargalhadas homéricas só de lembrar, cada vez que nos encontra. Quando crescemos numa mesma cidade a adolescência desajeitada é acompanhada por todos aqueles com quem compartilhamos aquela fase. E ela passa muito lentamente, de maneira irritante para nós e percebida pelos companheiros de forma divertida, às vezes deixando um buraco na nossa auto-estima, já naturalmente combalida no período. Se não éramos bons no esporte, por exemplo, levamos a falta de jeito incapacitante vida afora, porque se existe habilidade cuja aquisição não se dá...

Vínculos

É difícil lidar com as diferenças, estabelecer vínculos com quem não fecha conosco em tudo. A tendência é construir um emaranhado de raízes efêmeras, sem algo que as fixe, podendo ser arrancadas ao menor puxão. Em contrapartida, ficamos isolados no meio social em que inseridos fisicamente. São características inerentes àqueles quem vive mudando de cidade? Nem sempre. Grudamos nos chats da Internet, mas não conversamos com o vizinho, que adora Lupicínio Rodrigues como nós. É que conhecemos o cidadão e se tivermos contato, implica em trazer junto as facetas que não gostamos. Com isso, tornamo-nos seletivos na convivência, limitando-a a um grupo, de preferência o familiar. Somos reconhecidos pelas amizades que construímos. Elas podem ocorrer no emprego, por exemplo. O local de trabalho geralmente não é lugar de construção de afetos, mas de convivência institucional. E somos obrigados a reconhecer que o ambiente empresarial é uma verdadeira guerra em busca de espaço, promoção, empregabili...

Intervalo

Eis que chega triunfal! a cavalleria rusticana intermezzo: imobilizai-vos! Dos rostos do povaréu nenhum calor emana faces gretadas, palidez mortal puro pavor. Mãos crispadas, calos atávicos ancestral horror. Sequer as pupilas movem o inimigo imobiliza, allegro, ma non troppo: solta-se o primeiro músculo o segundo... o terceiro... Todos! a força injeta-se vital entra de roldão a dança flui, a dureza esvai o populacho dança, o inimigo baila. A música alcançao cérebro, as veias, o calor invade... tece teias. E a arena vira uma festa que a luz imensa clareia amnésia para o sofrimento, refresco para o espírito, até que voltem as cadeias.

Esperança

Como é bom de sentir a esperança fluindo é como véu se abrindo, naquilo que pode vir. É o fim do andar às cegas, embeber-se nela, eu sei, pode parecer piegas. Mas que coisa bem boa ver surgir um caminho não deixar o tempo à toa, mandar em si sozinho. Mando neles, ora bolas! Que tu achas oh! tempo! Que tu é que me controlas? Não vais escorrer pelos dedos pondo em conchas as mãos. Aprisiono-te, água pura! E entrarás feito torpedo, provocando a revolução, nesta minha vida parada. E a minha esperança futura, É agora, tudo ou nada!

Refém

O filme “Uma Mente Brilhante” quase deu a estatueta do Oscar de melhor ator a Russel Crowe em 2002 ao retratar a vida do matemático americano John Forbes Nash, que teve que conciliar a genialidade com a esquizofrenia paranóica. Temos zelo pela qualidade da nossa saúde mental. As doenças mentais para nós leigos, tem um limite pequeno entre os sintomas, que não percebemos facilmente se é defeito de caráter ou patológico. Nas doenças físicas é mais compreensível a quem não é do meio, justificar que aquela dor nas costas é o músculo tensionado e que o remédio X na posologia indicada pelo médico vai nos proporcionar o alívio num tempo comum estimado. No campo mental não. O leque dos distúrbios é grande e a impressão é que se vai testando medicamentos ou se submetendo a anos de terapia. Ir a um terapeuta ou psiquiatra para muitos de nós é admitir uma moléstia cujo estigma é a loucura e nos tornamos reféns desta marca. Daí para frente nossas ações passam a ser entendidas dentro do contexto de...

Inverno

O que é límpido o que é cristalino torna-se opaco, enrijece-se. O maleável endurece. O que escorre pode-se pegar, manipular. Não se consegue por muito tempo segurar. Queima e pele repele o contato pavorosamente, pede-se aos ossos, aos músculos, à consciência, não gele! Com um estalido um desentortar um gemido seduz. O viver se aquece Na quietude do inverno adormece-se à espera do fogo, à espera da luz. Chuva, seja mansa. Tudo hiberna no escorrer das eras. Mas há quem diga, que excetua-se a esperança, da eterna primavera.

Serventia

Nossa sociedade contemporânea consolidou os clichês para ratificar o que queremos encerrar peremptoriamente, dar um veredito, sem comportar maiores elucubrações. São armadilhas que lançamos mão num ímpeto de explicar qualquer coisa que apareça e para a qual não tenhamos tempo para um raciocínio mais amplo ou até por incapacidade mental nossa de fazê-lo. Fruto da nossa ignorância, toma corpo o descarte de tudo aquilo que não enxergamos aplicação imediata. Sinônimo também da impaciência característica dos nossos dias. Só nos serve o que é instantâneo, centrado no que está acontecendo agora e que precisa obrigatoriamente servir para alguam finalidade. Qualquer raciocínio um pouco mais complexo é doideira do interlocutor. O que serve é o aqui e agora. Na visão utiliária e imediatista há todo um culto ao presente. Passado e futuro perderam a importância e nós a capacidade de rever atos e pensar adiante. As tecnologias digitais forçam o uso do real-time (que também poderiamos traduzir por si...

Avaliar

Alguém está contando para um terceiro uma estória de arrepiar acerca do comportamento de uma pessoa que ambos conhecem. Os sentidos de quem está perto logo entram em estado de alerta, pelos detalhes interessantes do caso. Paralelo ao relato, quietos no nosso canto, dificilmente não entramos mentalmente na conversa e vamos tecendo nosso juízo e parecer sobre o assunto. Todos nós temos opinião sobre qualquer tema. O que vai permitir se vamos ocupar nossos neurônios com ele é o grau de interesse que o assunto nos desperta. Se orelha realmente queima quando se fala do que acontece na vida dos outros, como diz a lenda, certamente as do Felipão fumegaram quando da pendenga dele na saída do Chelsea e os milhões que embolsou de multa rescisória. E agora o cara vai para a Rússia, treinar um time de nome esquisito e o imaginário dos futebolistas ferve no mundo inteiro. Mas claro, trata-se de dinheiro. Quer assunto melhor para palpitar que dinheiro? “É uma pessoa pública, desperta a curiosidade d...

Confiabilidade

Apregoamos aos quatro ventos que a privacidade é um direito da pessoa. Mas na vivência do cotidiano, emitimos opiniões sobre esta ou aquela atitude, daquele(a) amigo(a) de quem nos julgamos para lá de íntimos. Afinal, amigo é para essas coisas. Credenciamo-nos a nos posicionar sobre o assunto, já que amigo que se preza fala bem, mas também está ali do lado para indicar o caminho certo. É que o outro, coitadinho, está tão transtornado pelos fatos que não enxerga que irá pela via errada. Barbaridade! Em que pese o ímpeto humano de avaliar, o posicionamento do amigo passa por, no mínimo, dois aspectos: O primeiro é se ele é tão amigo quanto se julga e se o grau de importância a que se atribui na vida da pessoa é realmente o que a pessoa dá a ele. O amigo sob foco pode estar apenas sendo gentil. E se a amizade não for tão forte assim, pode ser que o ajudado resolva cortar os vínculos ou se distanciar “por uma bobagenzinha de nada”. Ás vezes as amizades são apenas ligações que vão se criand...